"Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. "
Trecho do livro "Felicidade Clandestina"
Agora tendo o livro consigo, fingia não tê-lo. Só para depois ter o susto de o ter, perdia-o e achava-o. Lia um pouco e guardava-o. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Para ela, a felicidade era clandestina em vários sentidos, primeiro o livro não era dela, mas podia tê-lo consigo por um tempo indeterminado e depois criava falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Depois desses acontecimentos pressentiu que sempre para ela a felicidade seria clandestina. A narradora “criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade”. A felicidade em ter acesso aos livros, à leitura, que para ela era clandestina, pois não possuía livros e nem condições financeiras que possibilitassem um maior contato com eles. Esta “felicidade clandestina” significa que ela está muito feliz por realizar algo para ela ilegal, pois o fato de possuir um livro era, muitas vezes, na sociedade antiga, um privilégio dos mais favorecidos economicamente e continua sendo até hoje. Assim, podemos afirmar que a personagem narradora quebrou os paradigmas dessa diferença social, e por isso, cometeu grave delito, com sua insistência e amor aos livros. Conseguiu ter acesso ao seu objeto desejado.
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