sexta-feira, setembro 2

O mundo era tão rico que apodrecia



As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante, sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito que ela teve medo do Inferno.

Trecho do conto Amor


terça-feira, julho 26

Clarice, uma leitora insistente

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. 

Trecho de Felicidade Clandestina 

Depois de muito navegar num mar suave foi à sua casa apressadamente. Pelos detalhes de Clarice percebemos que a sua amiga era mais rica que ela. Morava numa casa e não num sobrado. A menina não a convidou para entrar e não poupou-lhe o sofrimento que já iniciava de só esperar na porta e não ser convidada para entrar. A menina muito calma informou-lhe que o livro havia sido emprestado e que voltasse no dia seguinte. Que decepção para uma leitora que navegou tanto num mar tão suave. Mas ela era forte, recomeçou então a sua caminhada. Pulando como de costume seguiu seus passos esperando pelos dias seguintes que seriam mais tarde a sua vida inteira.


Nem é tão ruim assim

Esse não-saber pode parecer ruim mas não é tanto porque ela sabia muita coisa assim como ninguém ensina cachorro a abanar o rabo e nem a pessoa a sentir fome; nasce-se e fica-se logo sabendo.

Trecho de A Hora da Estrela

Macabéa  não sabia e nem entendia nada, mas para Clarice esse não saber não era tão ruim assim, pois Macabéa sabia (mesmo sendo pouco) alguma coisa. Interessante é este trecho: ensina cachorro a abanar o rabo e nem a pessoa a sentir fome. Clarice, de todas as formas ela é demais. Nasce-se e fica logo sabendo. Assim é a vida, nascemos e todos sabem, vem ver. Mas será que quando Macabéa nasceu todos foram ver? Não. Ela era uma pisada.

domingo, julho 24

Coisas de outro mundo

Só acordou com o marido a voltar do trabalho e a entrar pelo quarto adentro. Não quis jantar nem sair de seus cuidados, dormiu de novo: o homem lá que se regalasse com as sobras do almoço.

Trecho do conto  Devaneio e Embriaguez duma Rapariga

A rapariga dormia sem se preocupar com nada, nem com o marido. Apenas dormia. Depois de passar o dia todo dormindo o seu marido chega, e ela por ter dormido o dia todo possivelmente  não fizera almoço. Mas o marido que se regalasse com as sobras do almoço. Se fosse nos dias atuais o homem poderia até espancar a mulher pelo fato que ali se desenrolou. Clarice no período desse conto os homens ainda respeitavam as mulheres, mas hoje isso pouco acontece. Que amor seria se tudo fosse assim, porém não é mesmo. Hoje em dia homem respeitar mulher? Coisa de outro mundo!

Macabéa você não vai tomar banho?

Ela toda era um pouco encardida pois raramente se lavava. De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combinação. Uma colega de quarto não sabia como avisar-lhe que seu cheiro era morrinhento. E como não sabia, ficou por isso mesmo, pois tinha medo de ofendê-la.

Trecho de A Hora da Estrela

Neste trecho, Clarice faz uma mera descrição da sua personagem Macabéa. A parte que eu acho mais interessante é  "De dia usava saia e blusa, de noite dormia de combinação.", muito interessante isso que Clarice lembrou. Muitas pessoas fazem isso, mas não percebem. Macabéa não gostava de tomar banho, ela trocava de roupa na própria cama debaixo do lençol. Macabéa fedia e tinha um cheiro morrinhento, mas não era exatamente isso que Clarice queria discutir com relação à nordestina.




Consumida pela felicidade

Não tenho tempo para mais nada, ser feliz me consome muito.


Frase de Clarice Lispector

A felicidade de Clarice era uma felicidade diferente, era clandestina. Ela tinha advinhado que a sua felicidade sempre seria clandestina, mas mesmo assim ela não teve tempo para mais nada. A felicidade era outra. Uma bem diferente.                                  

A sensível


Foi então que ela atravessou uma crise que nada parecia ter a ver com sua vida: uma crise de profunda piedade. A cabeça tão limitada, tão bem penteada, mal podia suportar perdoar tanto. Não podia olhar o rosto de um tenor enquanto este cantava alegre - virava para o lado o rosto magoado, insuportável, por piedade, não suportando a glória do cantor. Na rua de repente comprimia o peito com as mãos enluvadas - assaltada de perdão. Sofria sem recompensa, sem mesmo a simpatia por si própria. 

Essa mesma senhora, que sofreu de sensibilidade como de doença, escolheu um domingo em que o marido viajava para procurar a bordadeira. Era mais um passeio que uma necessidade. Isso ela sempre soubera: passear. Como se ainda fosse a menina que passeia na calçada. Sobretudo passeava muito quando "sentia" que o marido a enganava. Assim foi procurar a bordadeira, no domingo de manhã. Desceu uma rua cheia de lama, de galinhas e de crianças nuas - aonde fora se meter! A bordadeira, na casa cheia de filhos com cara de fome, o marido tuberculoso - a bordadeira recusou-se a bordar a toalha porque não gostava de fazer ponto de cruz! Saiu afrontada e perplexa. "Sentia-se" tão suja pelo calor da manhã, e um de seus prazeres era pensar que sempre, desde pequena, fora muito limpa. Em casa almoçou sozinha, deitou-se no quarto meio escurecido, cheia de sentimentos maduros e sem amargura. Oh pelo menos uma vez não "sentia" nada. Senão talvez a perplexidade diante da liberdade da bordadeira pobre. Senão talvez um sentimento de espera. A liberdade. 

Até que, dias depois, a sensibilidade se curou assim como uma ferida seca. Aliás, um mês depois, teve seu primeiro amante, o primeiro de uma alegre série.

Texto de Clarice Lispector

sábado, julho 23

A paixão de Clarice pelos livros

Ela era gorda, baixa, sardenta e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme; enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Trecho de Felicidade Clandestina

Neste conto Clarice mostra a sua paixão pelos livros. A sua diabólica amiga tinha todos os defeitos do mundo, mas possuía uma coisa que qualquer criança gostaria de ter: um pai dono de livraria. Clarice mostra no conto ser uma menina pobre e sendo assim não tinha condições de comprar um livro. Sem ter condições de ter um livro pediu a sua amiga emprestado o seu. Ela ia todos os dias na casa dessa menina, mas sempre o livro estava emprestado. Clarice era uma devoradora de histórias, mas não tinha livros; morava num sobrado.

Clarice na infância

Cuidado com as mudanças


Mude, mas comece devagar, porque a direção é mais importante que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.

Trecho de Una propuesta de Vida Creativa

Para podermos fazer uma mudança na nossa vida temos que ir devagar.Não que devamos deixar de mudar, mas devemos saber mudar. A direção que devemos seguir nas nossas vidas e mais importante do que a velocidade que orienta esta mesma direção. Se estamos sentados em uma cadeira, passamos lentamente para outra e mais tarde se ninguém ver podemos trocar de mesa. Devemos ter cuidado com as mudanças, a própria Clarice disse: Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.

Uma outra liberdade



Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.


Frase de Clarice

Para Clarice a liberdade era pouca coisa, ela queria muito mais e esse muito mais ainda não tinha nome. Ela escrevia para responder as suas perguntas e para dá  outro nome ao que ela achava pouco: LIBERDADE. Ela não era uma pessoa presa e sem liberdade, mas sim uma pessoa que queria muito mais liberdade de espírito. A liberdade dela não era a mesma dos nosso dicionários. Era outra. Uma sem nome.

Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos

  • De uma coisa tenho certeza: essa narrativa mexerá com uma coisa delicada: a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu. Cuidai dela porque meu poder é só mostrá-la para que vós a reconheçais na rua, andando de leve por causa da esvoaçada magreza: E se for triste a minha narrativa? Depois na certa escreverei algo alegre, embora alegre por quê? Porque também sou um homem de hosanas e um dia, quem sabe, cantarei loas que não as dificuldades da nordestina.

  • Eu vos pergunto: 
- Qual é o peso da luz? 
E agora - agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?! 
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos. 
Sim.

Trechos de A Hora da Estrela

No primeiro trecho é explicado uma certeza: essa narrativa mexerá com uma coisa delicada: a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu. Macabéa  era uma pessoa muito viva, o narrador nos da a dever de cuidar dela. Ele nos a entregou viva e era nossa a responsabilidade dos seus atos. Ela era magra e andava bem de leve na rua, tão de leve que nem viu o carro aproximando-se e atropelando-a. O narrador pergunta se a narrativa dele for triste, mas diz que na certa depois de quase todos os acontecimentos escreverá algo alegre para esquecer a nordestina. E é o que ele faz no segundo trecho - o último parágrafo do livro -  ele pergunta qual é o peso da luz e se lembra que também pode morrer e fala para não se esquecer, pois por enquanto é tempo de morangos. O fato de ser tempo de morangos é para ele o pagamento da obrigação que ele disse que ia fazer: depois na certa escreverei algo alegre.


Um Gesto Proibido





Joguei o cigarro aceso para baixo, e recuei um passo, esperando esperta que nenhum vizinho me associasse ao gesto proibido pela portaria do edifício. Depois, com cuidado, avancei apenas a cabeça, e olhei: não podia adivinhar sequer onde o cigarro caíra. O despenhadeiro engolira-o em silêncio. Estava eu ali pensando? Pelo menos pensava em nada. Ou talvez na hipótese de algum vizinho me ter visto fazer o gesto proibido, que sobretudo, não combinava com a mulher educada que sou, o que me fazia sorrir.

Trecho de A Paixão Segundo G.H

Podemos ver neste trecho um pouco da realidade de Clarice como humana, mas afinal de contas ela era humana. Estava ela na cobertura do seu apartamento fumando e de repente ela joga o cigarro acesso para baixo. Ela fez esse ato, mas sabia que era errado. Mas mesmo sabendo fez e sem se preocupar com muita coisa apenas com o porteiro e os vizinhos. Ela era uma mulher que todos a conheciam como uma pessoa bem certa, mas ela não era. Tinha lá os seus defeitos e para não mostrá-los as pessoas fazia tudo escondido. Ela era uma pessoa muito educada, pelo menos os vizinhos a viam assim. Para ela era um gesto proibido, que sobretudo, não combinava com a mulher educada que ela era.

Uma vez irei...


Uma vez irei. Uma vez irei sozinha, sem minha alma desta vez. O espírito, eu o terei entregue à família e aos amigos, com recomendações. Não será difícil cuidar dele, exige pouco, às vezes se alimenta com jornais mesmo. Não será difícil levá-lo ao cinema, quando se vai. Minha alma eu a deixarei, qualquer animal a abrigará: serão férias em outra paisagem, olhando através de qualquer janela dita da alma, qualquer janela de olhos de gato ou de cão. De tigre, eu preferiria...

Trecho de Clarice

Clarice neste texto descreve como deve ser manuseado o seu espirito. Uma vez ela irá sozinha e sem a sua alma, apenas com o espirito que será entregue a sua família e aos seus amigos, espirito este que merecem algumas recomendações. Para ela é um espírito simples que nada exige e que às vezes se alimenta de jornal. Para Clarice a sua alma nada vale e esta pode ser deixada em qualquer lugar. A sua alma poderia ser abrigada por qualquer animal, mas em especial a de um tigre. Mas porque um tigre e não um gato ou cão? Por que o tigre diferente do gato e do cão vive distante da cidade. A sua alma tinha que está distante de tudo, inclusive da cidade...


sexta-feira, julho 22

Uma procura com o eu na hora da morte

Tanto estava viva que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição fetal. Grotesca como sempre fora. Aquela relutância em ceder, mas aquela vontade do grande abraço. Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada. Era uma maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou. Quem era, é que não sabia. Fora buscar no próprio profundo e negro âmago de si mesma o sopro de vida que Deus nos dá.

Trecho de " A Hora da Estrela"

Este trecho de A Hora da Estrela relata o momento em que Macabéa fora atropelada. Ela que saia da cartomante abraçando-se, abraçou-se com a morte. Neste momento Macabéa saia de uma cartomante e muito abismada com o que lhe foi dito e revelado ela acaba sendo atropelada. Ela não se conhecia, não sabia quem era e na hora da morte se procurou e provavelmente reconheceu o seu eu. Na ânsia de viver buscou o sopro de vida que lhe faltava, mas não o encontrou. Morreu e teve a sua hora a da estrela.

Sou O Que Você Me Vê



Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania. Depende de quando e como você me vê passar.

Frase de Clarice Lispector

Clarice era - mesmo com toda tristeza - uma pessoa normal. Mas  para não causar nenhum impacto ou dúvidas com relação a isso ela mesmo disse "Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania". Sabemos que Clarice teve muitas fases em sua vida, mas ela era uma pessoa normal, que se estressa a qualquer momento e independente da forma como as pessoas a viam ela era.o que mostrava ser. Tinha apenas uma faceta e esta era a que mostrava sempre, sem se ocultar ou se esconder. 

Muitas são as perguntas e poucas são as respostas

"Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever"


Trecho do livro " A Hora da Estrela"

Clarice Lispector escrevia para responder as perguntas da vida. A sua obra foi muito extensa, isso quer dizer que ela teve muitas perguntas na vida e conseguiu responder algumas escrevendo. Ela não se preocupava muito em entender a vida, mas sim em viver. Ela mergulhou profundo na vida e deixou-se ser levada neste mergulho de cabeça. Muitas foram as perguntas e muito foi o resultado dessas indagações: uma obra fantástica e cativadora que é a dela.

A Minha Felicidade Sempre Será Clandestina


"Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, li algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. "

Trecho do livro "Felicidade Clandestina"


Agora tendo o livro consigo, fingia não tê-lo. Só para depois ter o susto de o ter, perdia-o e achava-o. Lia um pouco e guardava-o.  Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Para ela, a felicidade era clandestina em vários sentidos, primeiro o livro não era dela, mas podia tê-lo consigo por um tempo indeterminado e depois criava falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. Depois desses acontecimentos pressentiu que sempre para ela a felicidade seria clandestina. A narradora “criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade”. A felicidade em ter acesso aos livros, à leitura, que para ela era clandestina, pois não possuía livros e nem condições financeiras que possibilitassem um maior contato com eles. Esta “felicidade clandestina” significa que ela está muito feliz por realizar algo para ela ilegal, pois o fato de possuir um livro era, muitas vezes, na sociedade antiga, um privilégio dos mais favorecidos economicamente e continua sendo até hoje. Assim, podemos afirmar que a personagem narradora quebrou os paradigmas dessa diferença social, e por isso, cometeu grave delito, com sua insistência e amor aos livros. Conseguiu ter acesso ao seu objeto desejado.

quinta-feira, julho 21

Uma Verdade Cruel

Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.

Frase de Clarice