
- De uma coisa tenho certeza: essa narrativa mexerá com uma coisa delicada: a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu. Cuidai dela porque meu poder é só mostrá-la para que vós a reconheçais na rua, andando de leve por causa da esvoaçada magreza: E se for triste a minha narrativa? Depois na certa escreverei algo alegre, embora alegre por quê? Porque também sou um homem de hosanas e um dia, quem sabe, cantarei loas que não as dificuldades da nordestina.
- Eu vos pergunto:
- Qual é o peso da luz?
E agora - agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos.
Sim.
Trechos de A Hora da Estrela
No primeiro trecho é explicado uma certeza: essa narrativa mexerá com uma coisa delicada: a criação de uma pessoa inteira que na certa está tão viva quanto eu. Macabéa era uma pessoa muito viva, o narrador nos da a dever de cuidar dela. Ele nos a entregou viva e era nossa a responsabilidade dos seus atos. Ela era magra e andava bem de leve na rua, tão de leve que nem viu o carro aproximando-se e atropelando-a. O narrador pergunta se a narrativa dele for triste, mas diz que na certa depois de quase todos os acontecimentos escreverá algo alegre para esquecer a nordestina. E é o que ele faz no segundo trecho - o último parágrafo do livro - ele pergunta qual é o peso da luz e se lembra que também pode morrer e fala para não se esquecer, pois por enquanto é tempo de morangos. O fato de ser tempo de morangos é para ele o pagamento da obrigação que ele disse que ia fazer: depois na certa escreverei algo alegre.
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