sexta-feira, julho 22

Uma procura com o eu na hora da morte

Tanto estava viva que se mexeu devagar e acomodou o corpo em posição fetal. Grotesca como sempre fora. Aquela relutância em ceder, mas aquela vontade do grande abraço. Ela se abraçava a si mesma com vontade do doce nada. Era uma maldita e não sabia. Agarrava-se a um fiapo de consciência e repetia mentalmente sem cessar: eu sou, eu sou, eu sou. Quem era, é que não sabia. Fora buscar no próprio profundo e negro âmago de si mesma o sopro de vida que Deus nos dá.

Trecho de " A Hora da Estrela"

Este trecho de A Hora da Estrela relata o momento em que Macabéa fora atropelada. Ela que saia da cartomante abraçando-se, abraçou-se com a morte. Neste momento Macabéa saia de uma cartomante e muito abismada com o que lhe foi dito e revelado ela acaba sendo atropelada. Ela não se conhecia, não sabia quem era e na hora da morte se procurou e provavelmente reconheceu o seu eu. Na ânsia de viver buscou o sopro de vida que lhe faltava, mas não o encontrou. Morreu e teve a sua hora a da estrela.

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